O que há é o que havia. Aquela Terra que distante me vem na lembrança, aqueles ares que douravam outeiros - tudo é o Todo imergindo sempre no Tempo, esse Vento do Esquecimento. A fazenda do Retiro, a estação de Lacerda Franco: lugares que hoje não existem menos que fora de mim. Os meus antigos moraram nessas terras que hoje têm roupa de canavial. A Vó sempre conta que o Vô se arrevinha todos os feriados e domingos para noivar. A Mãe nasceu no lugar e o Pai noutra fazenda dos arredores. Hoje, tempo que se passando me sobrevem, tudo se transformou na minha forma de gente: sou o Cafezal que não existe mais, os tico-ticos pousando na copa das Arvores do quintal e a chaminé da Usina Santa Adelaide fumegando imensamente na distância feito mundo em chamas. Componho-me das fábulas que a tia Lola contava: dos lobisomens, sacis, mulas-sem-cabeça, duendes e habitantes da mata ao redor dos sítios, fazendas e outras querências. Brinco de trenzinho com latas de óleo. Imagino histórias de mundos que não existiriam mais se não fossem verdadeiros. Traspasso horizontes relembrando auroras, dessas tantas que se foram pro Jamais.
Dois Córregos, terra que me veio por Além desde nascido, guarda-me em cada rua que não passei por antes. Não me imagino em desconhecendo a Avenida da Saudade e as árvores da praça do Fórum; parece que de mim sempre foram pedaço como lembrança do Nunca-Mais, essa ausência abissal que fica na gente feito espinho encravado no lugar nenhum.
De tudo o que me preenche de sonho e tudo, o Tempo é que me fascina por não ter lugar em meu peito. Coração de gente é pra desfazer o que se convenciona feito. Por isso uma estrada, feito um rio, jamais tem começo e fim, é sempre continuação de outra.
De repente, os Estradões que cortam as plantações e pastos, as pinguelas e as minas, tudo se me reconverte em aperto de Saudade. Concebo-me, sem reportações, que perto da Ponte do Veadinho havia uma Grande Paineira. Sempre que eu a via, no compreendimento me dispersava diante de seus espinhos e frutos algodoados. Colossal. Braços abertos: Meu Destino - esse que não é de ninguém que não me seja eu mesmo.
Do que narro nestas linhas tortuantes, não vi sequer um relâmpago. Por isso reconheço que este mundo inteiro herdei por possentimento. A Luz desse Passado, que transmito como se não fosse minha, é o reflexo dos olhos do vô Dito contando a história do Joaozinho e Mariquinha ao pé do Fogão-de-Lenha. Como se eu fosse aquele interlocutor silencioso que fornecia o espelho para Riobaldo conversar consigo mesmo.
Doideira é querer esfumaçar a fumaça; não me envio a missões desmissionadas. Prefiro reabrir portas a fechar janelas, desenhar serpentes a caçar minhocas. Lembro-me, como se não fosse hoje, da escuridão e da meninada correndo a caçar vaga-lumes no descampado: "Pagalém-tem-tem... seu pai tá aqui sua mãe tamém... pra fazer curau na culhé de pau " - e todos corriam desendoidados a contraventar os verdinhos iluminados, sentindo a solidão do ventinho no peito. Asmatas se infechavam de si mesmas, comportando a virgindade de suas trepadeiras,sem margens a invasores - por xeretas que fossem, mesmo empunhando colher depau. Éramos meninos, rapazotes, que se desembestavam pelos campos sem medo de pisar em estrume de vaca, encantados que ficávamos pelas estrelinhas verdes flutuantes, os pagaléns.
De instante, quando me recomponho no pensar, irrompe-me nos sentidos um velho carroceiro cruzando a estrada, de rádio ao lado ouvindo Tião Carreiro e Pardinho, como quem fosse do Retiro ao sítio do Inacinho, contorcendo o areião nas rodas ondeantes de madeira - que hoje vejo enfeitando um casarão chique, como se o Presente a tudo ocultasse, menos o caminho que o trouxe: o Passado e o Tempo. Vinha de mansinho, sem pressa de Não-Chegar.
Seu José, peão competente, não desinclinava o chapelão de palha, olhando fixamente o estradão sem tansolhar, picando fumo-de-corda. Seu cavalo, Negro, salpicado de pintas pretas num pleonasmo vicioso, não arcava perante o peso que fosse a ser transportado.O cheiro de café madurorodeava o velho, e o Mundo. Havia um Progresso a ser percorrido, uma andança no mais-adiante.
Na distância erigia-se o sol sem que ninguém o erigisse. O clarão sobreposto à linha horizontal dourava a mente e iluminava o caminho. Alguém dirá com razão: "Imagem pobre, essa, sem cabeça ou perna!" Mas no sonho é assim, senão não é sonho de se não parar de sonhar pela vida inteira! Aquele homem, pelo estradão afora, rasgando chão nas rodas da carrocinha vermelha, é o significativo do meu Depois, como um símbolo por onde interpreto na compreensão qualquer demanda. Deus e o Diabo andam juntos pelo caminho, pois é Deus quem ilumina o descampo, enquanto o Demo projeta as sombras no chão. Quanto a mim, que atributo me sobraria? Caminhar. Por isso não sou o caminhante, como o velho José, sou O Caminhar. Sou o trem nunca mais vai parar na estação de Lacerda Franco.
Na história que o vô Dito contava, Joaozinho e Mariquinha avistaram na densa mata, em que estavam perdidos, uma luz miudinha quase morrediça na escuridão. Nisso me aflora, nos olhos de dentro, os olhos do Vô: brilhando num brilhar de olhos de quem me trazia o Passado - essa Montanha que esconde o Horizonte!
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
Nem me recordo mais daqueles estradões de areia queimando-me os pés. Queria perscrutar minha consciência dos momentos que se passaram naqueles dias, mas só me restou um sentimento de saudade e falta de ar. Moana sempre me dizia sermos fortes demais para confessarmos o passado; mas que direi eu a Moana? Ah, Moana, você não entende nada das coisas da estrada... nem das noites cobertas de ventos enlouquecidos.
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
Imagino ter sido assim meu passado: cheio de pessoas com rostos deformados pela ação do desejo de como desejaria que elas fossem. Eu queria muito desejar a realidade futura, mas o presente só me permite idealizar o passado, que é a única matéria pura que minha memória consegue preservar. Moana jurava de pés-juntos que jamais seríamos escravos do caminho. Mas Moana desistiu. Ah, Moana, minha Moana, onde está você? Sua sombra?
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
Eu nunca vou me esquecer que um dia já fui vaqueiro, porque o vaqueiro que eu fui jamais se esqueceu que um dia matou seu gato preferido tentando montar-lhe o dorso - pobre Xaxá. O Xaxá era meu companheiro quando a Moana nem se lembrava de mim para ficar mexendo com aquele estúpida roseira sem rosas.
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
Um dia, Moana estava assistindo televisão, quando passou pela frente da nossa casa um carro-de-boi que comia chão, levantando até poeira daquela areia limpa e seca de inverno. Ela veio a mim como quem contasse novidades vindas do interior das bandas do sítio do seu Dondô. Mas, além do olhar envelhecido, o que me trouxe foi a notícia de que o seu Dondô, coitado, tinha falecido. O seu Zé Preto vinha com seus bois estradeiros miando de choro na estrada com o carro das rodas de pau. Coitada da Moana, nunca mais tinha visto o seu Dondô desde que este lhe vendera um queijo estragado e ela lhe disse: “Vá pro inferno c’o esse queijo, seu Dondô!...” Agora, a amuada da Moana não sabia se poderia voltar à estrada e dizer pro velho que, afinal de contas, o queijo não estava tão ruim...
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
As árvores sempre balançam na minha mente, jamais param. É uma dança meio necessariamente doida desta minha obsessão por ventos e ventanias vindas de não-sei-onde. Moana bem sabia que eu gostava de vento, mas isso não explicava nem um pouquinho do porque Moana, às vezes, me acordava à noite, abanando meu tórax com a tampa da panela de curau ... êh! Moana, minha Moana!
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
Moana, minha Moana, quantos anos passamos desde o dia em que morremos! Venha comigo agora ressonhar nosso passado, venha Moana, que seremos sempre e sempre o que sonhamos ser debaixo daquele ipê... em noite noturna - sem lua - ao vento acariciador dos nossos espectros... sob a ausência da lua ... Venha Moana, me ama além do que você me amou, porque se eu lhe amar mais do que amei, o dia deixará de pertencer ao nosso passado para ser somente seu! E daí, Moana? Que graça teria?
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
Persigo-te em quimeras e lembranças. Adianto o passo errante e vou liberto; Se rasgo o peito ao vento nas andanças, És tu que me orientas no deserto.
Mas curta é a solidão pra quem resiste Ao sol que lhe castiga o ser errante; A luz não pesa mais que um sonho triste Que brota em teu olhar como um brilhante.
Comigo vem teu rastro sem juízo: Os rostos orvalhados pelo riso Imersos neste instante que me invade.
Estás nos pensamentos que demoram, Trancada na lembrança de onde afloram Imensas cachoeiras de saudade.
Na Mente que esclarece, a Cor é Espanto... E o Sonho lhe embriaga em Tons de Morte Persegue a Explicação, lhe estende o Manto Repousa nas Cantigas da Consorte...
Pois curta é a Solidão de quem viceja: No íntimo da Noite existe um Fogo Que jorra pelos Olhos e traceja Os Passos que nós damos como um Jogo.
Eu movo o Pensamento em disparada... Na Relva da Manhã despedaçada Em Gotas deste Orvalho de Mormaço.
Motivos de existir Eu desconheço Pois pago pela Dor o justo Preço: No altar do meu Presente me desfaço.
Não busco teu perdão, Sacerdotisa. Mas como não deixar que tu me leves, Se em cânticos velozes me exorcizas, Enquanto me consagras horas breves?
Com lágrimas assino este oráculo Que aos poucos no calor se vai na brisa, Assim, vou como nuvem, sustentáculo... Do altar de uma oração que se eterniza.
Recolho-me, ferido em sacrifício, E ali repousarei como um resquício Da vida que foi longa enquanto intensa.
Por isso, foi em vão tua vitória, Além do sonho existe a mesma glória Do amor de quem se deu por recompensa.
Na névoa espessa e branca em que lamento, Elevo a mesma prece, inflamo e suo. Almejo não ter fim, me lanço ao vento, Adianto um passo a Deus, então recuo.
No templo de uma infância onipresente Existo na procura e na distância, O tempo é o meu lampejo consciente Que agora já se foi, virou lembrança.
É indócil meu destino em quase tudo: Se busco a voz do sonho, fico mudo, E temo que este instante seja o inferno.
Mas como ignorar o meu cansaço, Se a brisa é um ponto em vácuo pelo espaço No medo visceral de ser eterno?
Mais um poema novo... Espero que gostem. Prometo que farei outros poemas românticos, porque este é uma reflexão sobre a vida.
PASSAMENTO
Agora que o presente se dilui Num misto de cansaço e de distância, Quem vai saber ao certo quando fui Presente neste mundo ou na lembrança?
Pois antes que este espaço vire ausência De alguém, ou de mim mesmo, ou primaveras, Eu sinto ainda o gosto desta essência, Das horas desiguais e das esperas.
Ao longe, vêm singrando o rio do nada Os sonhos desde a infância até a jornada Que agora neste pôr-do-sol se encerra.
Depois é o pensamento luminoso Que eleva o sol na paz do seu repouso Às brumas de outros tempos e outras eras.
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